Saber que se olha no espelho, toma banho, penteia o cabelo, sem lembrar de mim,
saber que se veste, sai, dirige, trabalha, estuda, sem lembrar de mim,
saber que se desveste, ama, ri e chora, come e bebe, e tudo sem lembrar de mim.
Saber que vive e é feliz sem lembrar de mim dói ainda mais que saber que não me ama, mais.
terça-feira, 31 de maio de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Grande demais
Brincando com Davi de noite, ele olha pra mim e pergunta:
- Cadê meu papai, eu quero meu papai.
- Está na faculdade Davi, chega já.
- Não gosto de você, quero meu papai.
Olhei para ele com cara de riso e continuamos brincando. Recebi muitos abraços apertados depois dessa conversa.
Mais tarde enquanto o preparava para dormir, relembrei a nossa conversa e disse:
- O Davi tem um coração grande, cabe mamãe, papai, vovó, quem mais?
- Mateus. (primo)
- A tia Inez, tio Wellington, quem mais? (pais do Mateus)
- Tia Jane. (irmã do papai)
- E a tia Lúcia. Você lembra da tia Lúcia que viajou para Portugual?
- Foi comprar o trem.
Ri muito e me emocionei, porque ele lembrou que no retorno da primeira temporada em Portugal, Lúcia e Nilton, trouxeram para ele trenzinhos de um desenho animado que ele gosta. E isso foi há quase um ano.
Davi pediu os seus trens. Fomos ao seu quarto e ele trouxe todos, os que ganhou dos tios e os que compramos por aqui, e levou para a cama.
Um coração grande demais e a memória heim?
Sempre nos surpreendendo.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Cirurgia
Eu nunca passei por uma, quer dizer, a única foi o parto cesária do Davi.
E agora meu filho, anestesia geral, para retirada das adenóides e amígdalas. Não vou falar dos motivos da cirurgia. Depois de muito conversar, mas principalmente de considerar a recomendação das médicas, pediatra e otorrino, nas quais confio, e apesar de minha mãe e irmã serem terminantemente contra, marcamos a consulta com o cirurgião e no dia seguinte estávamos no hospital.
Vê-lo ser sedado foi terrível e a espera, angustiante, ouvir o choro de outra criança também. Quando ouvi o chorinho e a vozinha rouca do Davi chamando a mamãe, pedi para entrar, em pouco estava com ele no colo, num abraço apertado. Ainda confuso, e enjoado, ele tentava arrancar com a mão o tubo e o acesso usado agora para o soro e depois para o antibiótico. Depois de vomitar, ele se acalmou e cochilou no meu colo.
A despeito de tudo, ele está sendo um menino muito bom, ficou calmo após a cirurgia, quando a dor aumentava vinha para meu colo e cochilava choramingando.
Ainda não está falando normalmente, nos primeiros dias eram só gemidos e gestos para mostrar o que queria.
Fiquei nervosa com a recusa inicial de se alimentar, mas Davi é um menino fora do comum. Hoje, terceiro dia após a cirurgia, devia estar começando a tomar sopas mais grossinhas e mingaus, mas não teve conversa, pediu comida, arroz, feijão e frango e comeu bem.
Algumas pessoas podem pensar que fui fria, quase não chorei, mas durante todo esse tempo, reuni as forças que tinha e as que não tinha para passar segurança para meu filho, para que ele sinta que estamos aqui, e que tudo ficará bem. Como não há uma mágica que permita às mães sofrerem no lugar de seus filhos, tentei ao menos, confortá-lo e dar muito carinho e amor.
E agora meu filho, anestesia geral, para retirada das adenóides e amígdalas. Não vou falar dos motivos da cirurgia. Depois de muito conversar, mas principalmente de considerar a recomendação das médicas, pediatra e otorrino, nas quais confio, e apesar de minha mãe e irmã serem terminantemente contra, marcamos a consulta com o cirurgião e no dia seguinte estávamos no hospital.
Vê-lo ser sedado foi terrível e a espera, angustiante, ouvir o choro de outra criança também. Quando ouvi o chorinho e a vozinha rouca do Davi chamando a mamãe, pedi para entrar, em pouco estava com ele no colo, num abraço apertado. Ainda confuso, e enjoado, ele tentava arrancar com a mão o tubo e o acesso usado agora para o soro e depois para o antibiótico. Depois de vomitar, ele se acalmou e cochilou no meu colo.
A despeito de tudo, ele está sendo um menino muito bom, ficou calmo após a cirurgia, quando a dor aumentava vinha para meu colo e cochilava choramingando.
Ainda não está falando normalmente, nos primeiros dias eram só gemidos e gestos para mostrar o que queria.
Fiquei nervosa com a recusa inicial de se alimentar, mas Davi é um menino fora do comum. Hoje, terceiro dia após a cirurgia, devia estar começando a tomar sopas mais grossinhas e mingaus, mas não teve conversa, pediu comida, arroz, feijão e frango e comeu bem.
Algumas pessoas podem pensar que fui fria, quase não chorei, mas durante todo esse tempo, reuni as forças que tinha e as que não tinha para passar segurança para meu filho, para que ele sinta que estamos aqui, e que tudo ficará bem. Como não há uma mágica que permita às mães sofrerem no lugar de seus filhos, tentei ao menos, confortá-lo e dar muito carinho e amor.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Muitos filhos
A família ideal para mim sempre foi a numerosa, com muitos filhos.
Tenho duas irmãs e gosto muito delas e de ter irmãs.
Sonhava ter três ou quatro filhos.
Mas depois de perder o primeiro filho aos 24 anos, e de ficar diabética, demorei muito para decidir engravidar novamente.
Davi nasceu quando eu estava para completar 35 anos. E agora não penso em ter outro ou outros filhos.
Adoro crianças, bêbes, mas quando imagino passar por tudinho de novo, não tenho mais forças, disposição, não sei.
Adoro ser mãe e posso dizer que agora me sinto bem confortável nesse papel, mas os primeiros meses foram difíceis. Quase não curti, tamanha era a tensão, preocupação, inexperiência.
Diz uma tia para não pensar que todo penso é torto. Mas eu pensei muito antes de ter o Davi e não seria diferente com um segundo filho.
Sempre achei que filhos devem ter irmãos, que ter irmãos é bom e necessário.
Mas um outro filho em função do primeiro, para ele, por ele, não é assim que deve ser.
Admiro e invejo quem tem uma prole maior.
E como tudo que é definitivo assusta, digo "o futuro a Deus pertence".
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Uma eternidade
Pois sim, acho que demoro excessivamente para superar meus traumas, perdas, desilusões.
Não que eu fique falando deles sempre, quem sabe deles sou eu.
Estão aqui dentro bem guardados, e ninguém sabe o que significam para mim, apenas eu.
Estava hoje mesmo falando disso com a afilhada Rafaela, nova moradora da minha cidade natal, Brasília. Cidade que completou 51 anos dia 21 de abril.
A cidade da minha infância e início da adolescência, dos monumentos, parques, quadras, entre-quadras, moramos em vários lugares antes da casa de onde saímos para o aeroporto e daí para Fortaleza.
De todos tenho recordações felizes. Uma infância feliz.
Saímos de lá há 27 anos e não voltei mais. Mamãe voltou, minha irmã voltou. Mas eu não.
Porque o medo? Não pelo que vivemos lá, mas por tudo que aconteceu depois. Por causa do corte brutal. Hoje posso dizer que enquanto se tem pai e mãe, qualquer lugar é lugar, para nós pouco importava lá ou cá. Adapta-se, faz-se novos amigos.
Mas a perda que veio depois tornou a cidade, os endereços onde moramos, os lugares de nossos passeios, lembranças do pai vivo, e o vazio da falta dele desce difícil pela garganta com um nó imenso.
O despojo de tudo que era nosso quando ele era vivo. O declínio que veio depois que saímos de lá.
Não, eu não poderia ser uma turista despreocupada em minha cidade natal.
Por isso o medo. E também porque demoro excessivamente para superar meus traumas, perdas, desilusões.
Eu é que sei deles, e o que significam para mim.
Não que eu fique falando deles sempre, quem sabe deles sou eu.
Estão aqui dentro bem guardados, e ninguém sabe o que significam para mim, apenas eu.
Estava hoje mesmo falando disso com a afilhada Rafaela, nova moradora da minha cidade natal, Brasília. Cidade que completou 51 anos dia 21 de abril.
A cidade da minha infância e início da adolescência, dos monumentos, parques, quadras, entre-quadras, moramos em vários lugares antes da casa de onde saímos para o aeroporto e daí para Fortaleza.
De todos tenho recordações felizes. Uma infância feliz.
Saímos de lá há 27 anos e não voltei mais. Mamãe voltou, minha irmã voltou. Mas eu não.
Porque o medo? Não pelo que vivemos lá, mas por tudo que aconteceu depois. Por causa do corte brutal. Hoje posso dizer que enquanto se tem pai e mãe, qualquer lugar é lugar, para nós pouco importava lá ou cá. Adapta-se, faz-se novos amigos.
Mas a perda que veio depois tornou a cidade, os endereços onde moramos, os lugares de nossos passeios, lembranças do pai vivo, e o vazio da falta dele desce difícil pela garganta com um nó imenso.
O despojo de tudo que era nosso quando ele era vivo. O declínio que veio depois que saímos de lá.
Não, eu não poderia ser uma turista despreocupada em minha cidade natal.
Por isso o medo. E também porque demoro excessivamente para superar meus traumas, perdas, desilusões.
Eu é que sei deles, e o que significam para mim.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Rubião
Quincas Borba de Machado de Assis.
Como nas outras obras do autor, enredo, ritmo, escrita me prenderam num crescente até a o desfecho.
A história de Rubião, parasita, herdeiro, novo rico esbanjador, apaixonado, louco e abandonado, me lembrou já no final, Samsa de Kafka, de quem todos se afastam não tendo mais o que usufruir dele.
E fez lembrar também dos meus pais, tantos amigos de ocasião que sumiram depois da queda financeira, depois da morte trágica: interesseiros, pérfidos, covardes, todos, os fictícios e os reais.
O erro de um em se cercar das pessoas erradas não justifica o erro dos outros.
Leio, releio, volto sempre aos livros de Machado de Assis, nunca é viagem perdida.
Como nas outras obras do autor, enredo, ritmo, escrita me prenderam num crescente até a o desfecho.
A história de Rubião, parasita, herdeiro, novo rico esbanjador, apaixonado, louco e abandonado, me lembrou já no final, Samsa de Kafka, de quem todos se afastam não tendo mais o que usufruir dele.
E fez lembrar também dos meus pais, tantos amigos de ocasião que sumiram depois da queda financeira, depois da morte trágica: interesseiros, pérfidos, covardes, todos, os fictícios e os reais.
O erro de um em se cercar das pessoas erradas não justifica o erro dos outros.
Leio, releio, volto sempre aos livros de Machado de Assis, nunca é viagem perdida.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Peço paz
Falsa sensação de segurança.
Vivemos como se não houvesse violência, maldade, desastres.
Como ser diferente? Em estado constante de alerta, como numa guerra?
Impossível.
Precisamos da zona de conforto, ajustar o inajustável para viver.
Até que algo aconteça e nos tire o chão.
Se a experiência é pessoal, desestabiliza por longo tempo, até nos sentirmos de novo seguros, ou desistirmos.
Se é algo apenas sabido, temor, reflexão e logo voltamos ao estado inicial.
Uma história muito triste me chegou aos ouvidos, uma acidente de carro, pai, mãe, quatro filhos entre 2 e 18 anos, apenas a mãe sobreviveu, noventa por cento do corpo queimado. Qual será o sentido da vida desta mulher daqui para frente? Não imagino uma vida sem meu único filho, sem meu marido.
Agora, esta tragédia, crianças, adolescentes alvos dos disparos de um psicopata. Cada família com sua dor, só sua, inigualável, inconsolável.
Encontramos formas de seguir em frente e sobreviver às perdas, aos sofrimentos. Qual o limite, quanta dor podemos suportar?
Tentamos nos cercar de garantias, reais ou imaginárias, para acreditar que nada disso nos atingirá um dia.
E planejamos nosso futuro junto aos nossos filhos e entes queridos. E rezamos, pedimos.
É o que podemos fazer.
Vivemos como se não houvesse violência, maldade, desastres.
Como ser diferente? Em estado constante de alerta, como numa guerra?
Impossível.
Precisamos da zona de conforto, ajustar o inajustável para viver.
Até que algo aconteça e nos tire o chão.
Se a experiência é pessoal, desestabiliza por longo tempo, até nos sentirmos de novo seguros, ou desistirmos.
Se é algo apenas sabido, temor, reflexão e logo voltamos ao estado inicial.
Uma história muito triste me chegou aos ouvidos, uma acidente de carro, pai, mãe, quatro filhos entre 2 e 18 anos, apenas a mãe sobreviveu, noventa por cento do corpo queimado. Qual será o sentido da vida desta mulher daqui para frente? Não imagino uma vida sem meu único filho, sem meu marido.
Agora, esta tragédia, crianças, adolescentes alvos dos disparos de um psicopata. Cada família com sua dor, só sua, inigualável, inconsolável.
Encontramos formas de seguir em frente e sobreviver às perdas, aos sofrimentos. Qual o limite, quanta dor podemos suportar?
Tentamos nos cercar de garantias, reais ou imaginárias, para acreditar que nada disso nos atingirá um dia.
E planejamos nosso futuro junto aos nossos filhos e entes queridos. E rezamos, pedimos.
É o que podemos fazer.
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