sexta-feira, 29 de maio de 2015

Calminha

Perto da empresa onde trabalho mora uma vovó, uma idosa.
Edgar Degas
A velha mulher italiana
1857
The Metropolitan Museum of Art, NY
Reprodução óleo sobre tela
Quando está bem, fica sentada no batente, calada, absorta, perdida em suas lembranças, em seus pensamentos, olhando a vida passar.
Quando não está bem, fica andando, indo e vindo na mesma calçada, gesticulando, xingando Deus sabe quem, em alto e bom som,  para quem quiser ouvir, e se responder, aí a confusão está feita.
Hoje eu vinha saindo pelo portão do estacionamento, e ela se levantou do batente, na mão o pano sobre o qual se senta. Veio andando na direção de sua casinha, que fica do outro lado da rua.
Pensei: como estará a vovó hoje?
Ela vinha em minha direção e quando chegou bem perto,  disse:
- Você é bonita, viu? Muito bonita.
Ufa, a vovó hoje está calminha, calminha.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Oração de São Francisco de Assis comentada

"Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz."
"Onde houver ódio, que eu leve o amor;" - que pelo menos eu não dissemine, nem alimente mais ódio
"Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;" - que se eu ofender alguém, eu pelo menos me arrependa, e que se alguém me ofender, eu perdoe, mesmo que leve algum tempo
"Onde houver discórdia, que eu leve a união;" - que eu não jogue brasa quente no fogo já quase extinto
"Onde houver dúvida, que eu leve a fé;" - ah, se a minha fé fosse do tamanho de um grão de areia!
"Onde houver erro, que eu leve a verdade;" - que eu seja coerente com  minhas verdades, mas não queira impô-las a ninguém
"Onde houver desespero, que eu leve a esperança;" - que minha esperança esteja em Deus, e que eu consiga levar um pouquinho que seja de paz a quem está desesperado
"Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;" - que eu não negue um sorriso, um abraço, uma piada
"Onde houver trevas, que eu leve a luz." - aí complica Senhor, se eu puder ser um fachozinho de luz na vida daqueles que amo, já é suficiente para mim, mas Tu és maior e sabes muito mais

"Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;

amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna."


Que eu não deixe de buscar ser o que São Francisco de Assis pediu para ser, mesmo que eu não acredite ser capaz de tanto.
Amém
Hábito de São Francisco de Assis, todo remendado, preservado na Basílica de Assis


domingo, 5 de abril de 2015

Tiriri, caixinha de fósforo

Nesses dias de mudanças de chefia lembrei do meu primeiro chefe. Luis Carlos Soares Timbó. Meu chefe de sempre na Secrel. Um profissional competente e muito dedicado, que foi extremamente paciente comigo. Paciente com a estagiária dedicada mas arrogante, com a profissional que depois de diagnosticada como diabética não quis mais viajar a trabalho aos confins do Brasil, porque morria de medo de não ter hora certa para comer, não encontrar os alimentos da dieta, ou de passar mal longe de casa.
Timbó, cabelo cinza, véi, Crispim, uma figura ímpar, com suas brincadeiras, ditos e piadas que nos faziam rir demais. Foram 11 anos de uma convivência profissional e pessoal muito rica. Aprendi muito com ele. Tenho muito a agradecer. A próxima vez que visitar a Secrel vou fazer isso, dar um forte abraço e mostrar esse post a ele.
"... e tiriri caixinha de fósforo.
Quero nem saber se peba põe, eu quero ver é a ninhada.
Cês não vão não ovão, cê bebe cachaça ovinho.
Enquanto descansa carrega pedra.
Pra comer é um leão, pra trabalhar é os empurrão.
Que Deus te abençoe e a mim não desampare.
Eu só queria falar com Francisco José."

Turma do Crispim






domingo, 15 de março de 2015

Ser e Ter

            Ultimamente ouvi tantas histórias de suicídio e uso de drogas entre adolescentes, e mesmo com Davi ainda pequeno, me atemorizo e procuro os porquês para tentar fugir deles. As histórias que ouvi são sobre adolescentes de classe alta, que estudam em colégios caros. Aí vem as conjecturas: pais ausentes, filhos mimados, que tem tudo que precisam e ainda muito mais, e que quando se frustam - a(o) menina(o) não quer mais namorar comigo, estou entediado, o que será de mim sem esse ou aquele, sem isso ou aquilo? - buscam uma saída radical.
            Quem nunca, na adolescência, com raiva de uma bronca ou proibição dos pais, não pensou: se eu morresse ela(e) ia se sentir culpado? Daí para a ação eram léguas de distância. Na verdade, esse pensamento não passava disso, uma pensamento, que passada a raiva, logo cedia à razão e à vontade de viver e experimentar, aproveitar, que era afinal era o motivo de tantas brigas entre pais e filhos.
Resultado de imagem para o principe sem sonhos
             Será que é esse o segredo? Não ter tudo e poder querer, poder sonhar, e saber, por experiência própria,  que não ter não tira pedaço, não é o fim do mundo, e muito menos o fim da vida.

              Li com Davi um livro muito legal que fala sobre isso, chama-se "O príncipe sem sonhos". Em resumo, um menino que tinha tudo que queria, pois seus pais amorosos davam a ele mal ele fazia menção de querer. E ele estava triste porque achava que não tinha sonhos, e que talvez sonhos nem existissem, mas numa conversa com o avô ficou sabendo que sim, os sonhos existem mesmo quando não podemos vê-los, e que existe diferença entre ter e ser.




quarta-feira, 4 de março de 2015

Uns mil

Este mês, Davi vai fazer suas primeiras provas (assim chamávamos em meus tempos de estudante). 

Para ajudá-lo, usando uma avaliação do ano passado, elaborei questões e imprimi. 

- Davi, estou preparando uma tarefa para você resolver e estudar para as avaliações.
- Então vou fazer tarefas para você também mamãe. 
E vai escrevendo e falando. Logo eu ouço "tia, nome, data, nota".
- E você vai me dar uma nota, Davi?
- Sim mamãe, a nota é muito importante.
- E como é que é Davi? Se eu acertar todas as questões, qual vai ser minha nota? - disse, esperando a resposta para explicar quais notas eram boas, que não era preciso tirar dez para ser bom aluno. 

E Davi, como não raro acontece, me desarma totalmente com sua resposta.
- Deve ser uns mil. 


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Não fui eu que escrevi, mas...

"You like every one; that is to say, you are indifferent to every one."
Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Não fui eu que escrevi, mas ...

"A possibilidade não era uma bolsa ou caixa que poderia ser fechada e selada, era uma queda d'água aberta que recebia qualquer coisa, qualquer coisa; ninguém podia escolher ou direcionar ou destruir a poderosa corrente de possibilidades."
Jante Frame dm Rumo a outro verão. Editora Planeta do Brasil, 2009.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Mamãe Amarela

Na cama com Davi, naquela horinha em que o sono já vem chegando e a criança se agarra aos últimos momentos de consciência.
- Mamãe, diz uma coisa legal.
- Coisas que eu acho legais?
- É.
- Sol, praia, e caminhar na praia sob o sol. Ler. Comer. Passear. Agora é sua vez?
- Brincar, brincar, e brincar. Jogar, jogar, jogar. Ver filme. E ...
- Já sei, e receber beijos e abraços da mamãe.
- É, e você gosta de dar cheiro no meu suvaco.
- É sim, eu adoro.
- E eu, gosto que você cheire, e de beijar e abraçar a mamãe amarela.
- Está me chamando de amarela é?
- Não mamãe. Amar ela, amar a mamãe.
- Ah, ah, ah, ah, eu entendi amarela Davi e não amar ela.
- Ah, ah, a mamãe amarela.

Arquivo: Vincent van Gogh - Quarto de Van Gogh em Arles - Google Art Project.jpg
Quarto em Arles, Vincent Van Gogh (Fonte:Análise...)