Um portãozinho simpático, pintado de branco, um corredor ocupado por um banco de madeira, debaixo da janela do quarto. No fim do corredor, a porta.
Casinha de vila.
Os móveis não condizem com o tamanho e a simplicidade do lugar.
O gesso do forro quebrado em vários pontos, alguns pedaços dependurados parecem prestes a cair, os fios de arame à mostra.
Na cozinha, improvisada num dos quartos, a mesa é demasiado grande, assim como os armários. O fogão enferrujado destoa.
Ali quase não há mais forro, as vigas e telhas aparecem.
Em dia de chuva, a casa é uma peneira.
Outro corredor leva ao que deveria ser cozinha, mas foi transformado em área de serviço.
Um varal toma conta deste corredor e do último compartimento.
No chão um motor barulhento puxa água do poço. Quando o motor quebra, a única forma de ter água é pegar com baldes direto do poço.
O único banheiro fica no fim da casa, com uma pequena janela, com astes de ferro como de prisão, aberta para o exterior, mal coberta por uma toalha.
Nenhuma privacidade. Pelos telhados das casas, andam homens, meninos.
Nos cantos desse último compartimento, buracos, pequenos buracos de ratos. Não havia veneno, nem cimento, nada impedia que eles proliferassem.
O quintal da casa que fazia limite com a casinha de vila era um criadouro desses bichos.
E eles tomavam conta de tudo. Durante à noite, passeavam pela casa, subiam no armário da cozinha, derrubavam latas de mantimentos, assustando mãe e filha que dormiam na sala.
Donos e habituados, passaram à sala, passeando por debaixo do sofá-cama e da rede.
Insone, a menina passava longas horas tentando espantar os bichos.
Foram muitos anos nesta casinha que habita os pesadelos das três meninas, que hoje moram em apartamentos, e não são mais meninas.
Casinha da Vila São Francisco, 1987-1996
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Frágil
Ontem mesmo, quatro desmaios, pressão muito baixa, ânsias.
O motivo? Não sabemos ainda.
Glicemia? Dentro dos limites da senoide administrável.
Comida estragada? Nenhum outro sintoma indica, exame de sangue normal, nem virose, nem infecção.
Gravidez? Duvido. Método noventa e nove vírgula noventa e nove por cento seguro, e meu menino, quando na barriga, só me fez sentir muita fome e muito sono.
E então? Agora começa a investigação para encontrar um culpado: se neurológico, se cardíaco, se estresse, ou outro motivo, ou nenhum.
Quando souber, digo aos que tiverem interesse e aos que não tiverem também. Vá lá lhes seja útil.
Lição? Hoje pessoas que cuidar, coisas que resolver, depois, bem, depois a vida segue sem mim.
O motivo? Não sabemos ainda.
Glicemia? Dentro dos limites da senoide administrável.
Comida estragada? Nenhum outro sintoma indica, exame de sangue normal, nem virose, nem infecção.
Gravidez? Duvido. Método noventa e nove vírgula noventa e nove por cento seguro, e meu menino, quando na barriga, só me fez sentir muita fome e muito sono.
E então? Agora começa a investigação para encontrar um culpado: se neurológico, se cardíaco, se estresse, ou outro motivo, ou nenhum.
Quando souber, digo aos que tiverem interesse e aos que não tiverem também. Vá lá lhes seja útil.
Lição? Hoje pessoas que cuidar, coisas que resolver, depois, bem, depois a vida segue sem mim.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Lembranças
Tinha um sonho recorrente quando era menina.
Sonhava que morávamos numa casa de fazenda, antiga, com um grande alpendre.
Nesse alpendre, numa cadeira de balanço, meu pai embalava um menino.
Esse menino era meu filho.
A mamãe e as meninas, eu não as via, mas estavam lá.
E eu olhava para meu pai e meu filho com um amor e um orgulho imensos.
Conversávamos e ele falava de planos para aquela terra que era dele e nossa.
Falava de detalhes, tais árvores frutíferas, tais leguminosas.
Não lembro bem, mas eu discutia com ele o que era melhor plantar.
E acordava com uma sensação boa e ruim aos mesmo tempo.
Mas deixemos nossos mortos em paz que os vivos requerem cuidados.
Sonhava que morávamos numa casa de fazenda, antiga, com um grande alpendre.
Nesse alpendre, numa cadeira de balanço, meu pai embalava um menino.
Esse menino era meu filho.
A mamãe e as meninas, eu não as via, mas estavam lá.
E eu olhava para meu pai e meu filho com um amor e um orgulho imensos.
Conversávamos e ele falava de planos para aquela terra que era dele e nossa.
Falava de detalhes, tais árvores frutíferas, tais leguminosas.
Não lembro bem, mas eu discutia com ele o que era melhor plantar.
E acordava com uma sensação boa e ruim aos mesmo tempo.
Mas deixemos nossos mortos em paz que os vivos requerem cuidados.
sábado, 23 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Gorda
Ia andando na rua preocupado com o carro no conserto.
- Marcelo!
Reconheci a voz, mas quando virei o rosto para ver quem me chamava, tomei um susto.
- Suzana! Quanto tempo!
Conversamos sobre trabalho, casamento, filhos, conversa rápida, encabulado. Eu completamente desconcertado.
Caramba, como está mudada, na verdade está enorme.
Quando namoramos, dez anos, é, acho que faz uns dez anos, ela era uma sílfide.
Magra, pernas grossas, sem barriga. Adorava esportes, calças jeans e camisetas.
Foi isso que me agradou logo de cara, a elegância dela.
Não era aquela beleza que chamava atenção, era discreta, usava sempre os cabelos presos, não usava decotes, mesmo porque tinha seios pequeninos, não andava rebolando, não usava roupas chamativas, coloridas, nem perfurmes fortes.
Era elegante, alta, magra, tudo durinho e no lugar.
E muito simpática, um sorriso e uma risada que me tiravam do sério.
Depois que terminamos não tive mais contato.
Soube quando se casou, soube quando engravidou, quando teve filho.
Lia seu blog vez ou outra.
Mas nunca poderia imaginar, não havia pistas, nem ninguém comentou, que ela havia engordado tanto.
Amigos da onça! Alguém podia ter me dito, assim eu poderia ter disfarçado a surpresa de vê-la tão diferente.
Fico pensando o que aconteceu, o que acontece com todos? Casamento, filho, doença? Não sei.
Eu até emagreci depois que nos separamos, acho bacana ser magro, esportivo. Só tinha me esquecido e ela me fez lembrar.
Daí pra frente todas as minhas namoradas eram como ela.
Passei dias, meses lembrando da decepção de vê-la tão diferente.
Preferia guardar a lembrança daquela linda mulher que conheci e amei.
Tenho certeza que isso não vai acontecer comigo, não vou deixar.
- Marcelo!
Reconheci a voz, mas quando virei o rosto para ver quem me chamava, tomei um susto.
- Suzana! Quanto tempo!
Conversamos sobre trabalho, casamento, filhos, conversa rápida, encabulado. Eu completamente desconcertado.
Caramba, como está mudada, na verdade está enorme.
Quando namoramos, dez anos, é, acho que faz uns dez anos, ela era uma sílfide.
Magra, pernas grossas, sem barriga. Adorava esportes, calças jeans e camisetas.
Foi isso que me agradou logo de cara, a elegância dela.
Não era aquela beleza que chamava atenção, era discreta, usava sempre os cabelos presos, não usava decotes, mesmo porque tinha seios pequeninos, não andava rebolando, não usava roupas chamativas, coloridas, nem perfurmes fortes.
Era elegante, alta, magra, tudo durinho e no lugar.
E muito simpática, um sorriso e uma risada que me tiravam do sério.
Depois que terminamos não tive mais contato.
Soube quando se casou, soube quando engravidou, quando teve filho.
Lia seu blog vez ou outra.
Mas nunca poderia imaginar, não havia pistas, nem ninguém comentou, que ela havia engordado tanto.
Amigos da onça! Alguém podia ter me dito, assim eu poderia ter disfarçado a surpresa de vê-la tão diferente.
Fico pensando o que aconteceu, o que acontece com todos? Casamento, filho, doença? Não sei.
Eu até emagreci depois que nos separamos, acho bacana ser magro, esportivo. Só tinha me esquecido e ela me fez lembrar.
Daí pra frente todas as minhas namoradas eram como ela.
Passei dias, meses lembrando da decepção de vê-la tão diferente.
Preferia guardar a lembrança daquela linda mulher que conheci e amei.
Tenho certeza que isso não vai acontecer comigo, não vou deixar.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Teco
Davi fez teste de glicemia comigo.
Não, ele não está diabético.
Não, o diabetes mellitus tipo 1 não é hereditário, mas, sempre pode acontecer.
E esse era um dos meus maiores medos quando finalmente decidi engravidar de novo.
Para mim, que sei como é complicado conviver com a doença, seria ainda mais difícil cuidar de um filho com diabetes.
Outro dia eu estava com o glicosímetro, e ele muito curioso querendo pegar.
- Davi, mamãe está fazendo o teste.
- Teco, teco. - e mostrava o dedinho.
Então eu fiz.
Ele não reclamou do furinho no dedo, não se perturbou com o sangue, apertava mais o dedinho para ver outra gotinha.
Deixou-me fazer o procedimento bem quietinho, admirado.
- Pronto, Davi, olha, deu 89. Muito bom.
E agora, vez ou outra quando me vê fazendo o teste, diz teco, teco.
Qualquer dia está fazendo sozinho.
Não, ele não está diabético.
Não, o diabetes mellitus tipo 1 não é hereditário, mas, sempre pode acontecer.
E esse era um dos meus maiores medos quando finalmente decidi engravidar de novo.
Para mim, que sei como é complicado conviver com a doença, seria ainda mais difícil cuidar de um filho com diabetes.
Outro dia eu estava com o glicosímetro, e ele muito curioso querendo pegar.
- Davi, mamãe está fazendo o teste.
- Teco, teco. - e mostrava o dedinho.
Então eu fiz.
Ele não reclamou do furinho no dedo, não se perturbou com o sangue, apertava mais o dedinho para ver outra gotinha.
Deixou-me fazer o procedimento bem quietinho, admirado.
- Pronto, Davi, olha, deu 89. Muito bom.
E agora, vez ou outra quando me vê fazendo o teste, diz teco, teco.
Qualquer dia está fazendo sozinho.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Inventador
Lá vai o menino, na bicicleta, a caminho da escola.
As mãos, além do guidom, seguram um caderno aberto e um lápis.
Enquanto pedala, tenta escrever no caderno.
Tarefa incompleta?
Invecionice de menino.
As mãos, além do guidom, seguram um caderno aberto e um lápis.
Enquanto pedala, tenta escrever no caderno.
Tarefa incompleta?
Invecionice de menino.
Assinar:
Postagens (Atom)