terça-feira, 11 de maio de 2010

Flores da vovó Zaré

Igual mas diferente

Ela ama o pai. Não gosta de dizer amava porque em sua memória ainda vive e é amado.
Mas não, não queria um marido como ele.
Seu pai passava longos meses viajando, embrenhado em áreas rurais, comprando e vendendo, demarcando, construindo.
Todas as responsabilidades do dia a dia cabiam a mãe.
Muito sozinha. Família são pai, mãe e filhos.
Em uma época pré-celular, as comunicações com o pai eram por recado e rádio amador e sempre na urgência de não ter o da semana seguinte.
Despesas mensais eram pagas na volta do pai, 6, 9, 10 meses de uma só vez.
Por isso prometeu ser independente financeiramente.
Queria um marido, que além do amor, aquele mesmo que os pais sentiam um pelo outro, dividisse as alegrias e chateações do dia a dia, nos detalhes mais comezinhos: o que servir na refeição, escolha da escola do menino, pagar as contas do mês, cor do forro do sofá, notas do boletim, férias, abastecer, consertar, abrir o vidro de azeitona. Umas decisões e atribuições para um, outras para outro. As importantes decididas em comum.
Mas sim, com todo aquele amor desmedido e despudorado do pai.
Queria que cada retorno ao fim do dia fosse como o retorno de longos meses de separação.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Autor não divulgado

Outro dia, Eduardo me deu pediu para revisar e formatar um trabalho de faculdade. Depois de ler, foi até fácil eleger os itens e subitens, dar títulos, organizar em uma ordem lógica.
Montar a bibliografia é que foi frustrante.
O trabalho foi uma montagem das pesquisas dos cinco integrantes da equipe e Eduardo havia me adiantado que muita coisa tinha sido copiada da Internet.
O mais óbvio e que eu pensei não dar resultado, foi copiar parte dos textos no Google.
E não é que estavam lá, copiados iguaiszinhos dos sites mostrados na lista de respostas às minha pesquisas.
Próximo passo: procurar o autor para uma bibliografia em que constasse o nome do autor, o título do texto, o título do site e o link.
Vamos lá:
- Será que o site citou a fonte?
- Não.
- Será que um dos sites listados é de alguma instituição séria ou algum especialista no assunto que citou a fonte? - Não, pode ser até sério e especialista, mas não informou a fonte.
Senti na pele a importância de informar quem escreveu aquelas palavras que estamos reproduzindo e de saber quem escreveu aquilo quando procuramos alguma informação na Internet.
Numa reportagem que li hoje, Robert Darnton coloca em palavras o que senti nessa tentativa de atender a um pedido de meu marido e fazer daquela porção de textos reunidos algo digno de ser chamado trabalho de faculdade (não se preocupe eu cito a fonte e autor direitinho no final):
"Seja qual for o futuro, ele será digital", resume Darnton. Segundo ele, deve-se olhar para o futuro digital com adesão crítica, sem nunca deixar de olhar pelo espelho retrovisor. A internet, como toda inovação tecnológica, apresenta-se, ao mesmo tempo, com bênção e maldição.
    Para Darnton, ela tem a largura de uma galáxia e a profundidade de um dedo. Embora útil na maioria das situações, tornou-se a maior fábrica de rumores da história, na qual afirmações falsas estabelecem sua veracidade pelo peso das infinitas repetições.A maioria dos sites faz um trabalho muito ruim ou inexistente no sentido de documentar suas fontes ou oferecer referências básicas. Todas as informações vêm com uma forte embalagem de onisciência - ou seja, toda narrativa se passa como se fosse destituída de fonte.

Assim sendo, no lugar destinado ao sobrenome e nome do autor coloquei "autor não divulgado".

A reportagem citada acima está na edição de 5 de maio de 2010 da revista CartaCapital, coluna Plural, intitulada O Cheiro do Saber por Elias Thomé Saliba e trata do livro "A questão dos livros" de Robert Darnton.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Não mais

Ela se achava especial.
Bonita, um tipão, alta, elegante.
Lutadora, vencedora.
Quando isso mudou?
Em que momento deixou de ser tudo isso? Deixou de se sentir assim?
Antes tinha o pai para lembrá-la sempre de como era bonita, amada.
Mas não foi logo depois da morte do pai. Mesmo depois, ainda se sentia especial, triste, menos completa, mas ainda especial.
Era preciso alguém para dizer a ela, confirmar. Não houve quem assumisse esse papel.
Ninguém, como seu pai, falava e demonstrava sem pudor, sem pejo, o amor, a admiração, que sentia.
Talvez por ela ser parte dele, algo que ele não temia perder.
Então foi perdendo o hábito, a certeza, a confiança.
Não se sente muito bem ao ser observada, elogiada. Sente vergonha, acha exagero.
Não se sente mais especial, bonita, um tipão.
O tempo maltratou, calejou.
Já não se sente especial.
Quando foi que mudou e porque ela não sabe bem dizer.
Talvez não tivesse certeza de que era especial, bonita, um tipão.
Precisava que dissessem, repetissem, confirmassem.
Talvez nem seja mesmo, mas sente falta de que alguém diga que a vê assim.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Paparico

- E o suco da Neusa?
Silvaneide pega a jarrinha com o suco separado antes de adoçar, o suco da Neusa.
- Você tomou o suco? Está muito forte?
- Tomei sim, está ótimo.
- Fiz uma saladinha verde, está na geladeira.
- Vão almoçar que eu fico com o Davi.
Tão bom ser paparicada.
Passamos dez dias no sertão, sítio São Cosme, casa de minha sogra.
Sei que o carinho é por extensão, por ser esposa do filho, mãe do neto.
Ainda assim é tão bom.
Ô saudade do sítio São Cosme e sua gente.
Ô saudade da Várzea Alegre, pena que é tão longe.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Férias

Estamos saindo de férias, finalmente.
Um doce para quem adivinhar onde vamos passar alguns dias de nossas férias.
Dica: É no Brasil, no interior do Ceará, é quente pra danar e vamos lá todos os anos.
Não é um lugar turístico, é aquele onde vivem pessoas queridas.
Assim, quem chegar até aqui:
- Fique um pouco, leia, quem sabe você não se identifica com alguns de meus relatos.

Forte abraço e até a volta.
Neusa