"... não entendo amizade como uma soma de gestos recíprocos, não compreendo amizade que contabiliza, que anota visitas e cartas, que alega, que exige exclusividade, que tem como preocupação constante o receio de desagradar, amizade que cansa, fazendo recriminações constantes, amizade que absorve e que escraviza.
Amigos se dizem mutuamente as coisas de forma clara e direta, ..., não ficam a fechar a cara, a torcer caminho, cultivando lundu, explorando mágoa, ocultando sentimento.
Amigos se dizem o que sentem, simplesmente, ...
Seria medonho entender amizade apenas como a visita diária, o ver-se frequentemente, o cartear-se amiúde, regularmente, esse jogo de ping-pong afetivo, a repetição de compromissos de fidelidade, o presentinho, os clássicos protestos de estima e consideração das cartas oficiais.
...
Seria horrível imaginar como amizade a convivência dos que se insinuam na estima alheia e vão trabalhando aos poucos no sentido de impor-se como modelo, dos que pretendem projetar nos outros a sua personalidade, dos que exigem dos amigos reações iguais às suas, dos que querem os amigos à sua imagem e semelhança, dos que pretendem determinar aos amigos as atitudes que normalmente, e em princípio, devem ser tomadas de modo espontâneo, esquecidos de que cada um tem sua forma particular de agir e de reagir, que cada um, como diz o outro, "é um sopro de Deus que não se repete".
Seria insuportável ter como amigos os egoístas, os avarentos que, no fundo, só são amigos de si mesmos - os que não sabem compreender e perdoar, os que exigem posição de primeiro plano no nosso afeto, os que esmagam mesmo protestando afeição) e acabam configurando um tipo de relação humana que , escondida sob o nome de amizade, não passa de conta-corrente afetiva, talvez jogo de interesse, troca de pequenos ou grandes favores, hipocrisia.
Amizade é outra coisa, não se impõe, não se força, não se compra, não se transfere, não se delibera, tem a sua linguagem própria, até nos silêncios, nos gestos mais simples...
Amizade é um sentimento muito nobre, muito alto, muito puro, muito profundo, muito sério, muito verdadeiro, muito poderoso, muito belo, muito especial...
É um sentimento tão fabuloso que a palavra amigo não admite adjetivo ao seu lado, tem que vir sozinha, porque é impossível falar em "amigo bom", sem tombar num pleonasmo grosseiro, não se pode falar em "amigo ruim" sem cair em contradição: neste ponto a amizade é tão exigente como a honestidade, não permite superlativo, nem aceita meio termo.
Amizade é confiança mútua, é ajuda, é lealdade, é uma forma de identificação, é a solidariedade nos momentos difíceis, mais do que nas horas festivas; é respeito recíproco, sem quebra de naturalidade, da liberdade de agir e de falar, é aceitação da outra personalidade sem prejuízo da sua própria, é aceitação do amigo, incondicionalmente, no conjunto, com toda sua bagagem de virtudes, defeitos, pecados e graças.
Os que saem desta concepção (bastante ampla, é certo, mas inegavelmente veradeira), os que exigem festejo constante, reverência permanente, os que se habituam a interpretar a seu modo as atitudes dos amigos, mesmo as mais bem intencionadas, com relação a eles e se precipitam em conclusões fáceis e falsas, estes ficam repetindo aborrecimentos recíprocos que terminam gastando tudo...
E que eu, particularmente, me rejubile ... pelos amigos que tenho e que não mereço, assim como são - e que me aceitam, assim como eu sou."
José Milton de Vasconcelos Dias - Cartas sem Resposta - Da Amizade (1974)
Fonte: Antologia Terra da Luz - Prosadores (1998)
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Qual foi o saldo?
Balanço de fim de ano? Planos para 2011?
Estou em fase de balanços diários e planos de curtíssimo prazo.
Se é mais efetivo?
Acho que sim.
Planos de médio e longo prazo também podem ser bem sucedidos, tendo-se o cuidado de fazer os devidos ajustes no caminho tortuoso até o objetivo.
Mas - sempre o mas - é preciso possuir os recursos mínimos antes de começar a arquitetar uma estratégia para um sonho mais alto, recursos que agora não possuo.
Não, não estou reclamando.
Os planos de curto prazo realizados podem ser degraus, uma pequena parte da estrada traçada para um desejo mais ambicioso.
Cuidar para que o menino esteja sempre com saúde, tenha boa educação, dar-lhe muito amor e carinho, serão determinantes para que seja feliz agora e no futuro, é ou não é?
Cuidar da saúde, física e mental, no dia a dia vai tornar a velhice e os anos que vem antes dela mais amenos e até mais animados.
Demonstrações de afeto, estar próximo do marido, do filho, da família e dos amigos, algum controle financeiro, tudo isso terá seu retorno também a longo prazo.
Manter firme e forte o que de bom foi realizado em 2010 e largar de mão o que não foi.
Estou em fase de balanços diários e planos de curtíssimo prazo.
Se é mais efetivo?
Acho que sim.
Planos de médio e longo prazo também podem ser bem sucedidos, tendo-se o cuidado de fazer os devidos ajustes no caminho tortuoso até o objetivo.
Mas - sempre o mas - é preciso possuir os recursos mínimos antes de começar a arquitetar uma estratégia para um sonho mais alto, recursos que agora não possuo.
Não, não estou reclamando.
Os planos de curto prazo realizados podem ser degraus, uma pequena parte da estrada traçada para um desejo mais ambicioso.
Cuidar para que o menino esteja sempre com saúde, tenha boa educação, dar-lhe muito amor e carinho, serão determinantes para que seja feliz agora e no futuro, é ou não é?
Cuidar da saúde, física e mental, no dia a dia vai tornar a velhice e os anos que vem antes dela mais amenos e até mais animados.
Demonstrações de afeto, estar próximo do marido, do filho, da família e dos amigos, algum controle financeiro, tudo isso terá seu retorno também a longo prazo.
Manter firme e forte o que de bom foi realizado em 2010 e largar de mão o que não foi.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Num velho livro, que surpresa agradável
Num livro de páginas amareladas pelo tempo, herdado e esquecido num canto de nossa pequena biblioteca, descobri a história de um homem. Ri e chorei vendo seus filmes, seus personagens, mas não conhecia nada da sua vida. Aqui um pequeno resumo do que li.
Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, filho de um cantor e uma bailarina. Órfão de pai aos 5 anos, aos 7 vai para um asilo-orfanato com o meio-irmão Sidney, onde ficam por dois anos, até reencontrarem sua mãe agora "curada" de mal psiquiátrico. Aos 11 anos, sua mãe tem novas crises e é internada. Sozinho, sem casa e sem trabalho, dorme nas ruas e procura cachês nos music-halls.
Desde muito cedo, com apenas 9 anos, já se apresenta pelos music-halls londrinos. O irmão Sidney, aos 21 anos, torna-se empresário de Charles (17 anos) e orienta-o para o cômico. Aos 24 anos deixa a Inglaterra e em Los Angeles inicia a carreira cinematográfica. Entre 16 e 19 de janeiro de 1914 faz seu primeiro filme, Making a Living. Em 1917, já com 62 filmes feitos, inicia a construção do Estúdio Chaplin no Sunset Boulevard em Hollywood. As cifras aumentam. O método de filmar uma cena inúmeras vezes chega ao extremo em The Kid no qual algumas cenas são filmadas mais de 100 vezes. Em 1928, toma partido contra o cinema falado, para em seguida reiniciar as filmangens de City Lights como fita sonora. Em 1932, embarca para a Europa para apresentar City Lights e encontra-se com personalidades literárias, políticas e teatrais - Bernard Shaw, Lady Astor, Winston Churchill, príncipe de Gales, Gandhi). Às portas da Segunda Guerra Mundial prepara e inicia as filmagens do The Great Dictator.
Casa-se várias vezes. Em 1918, em segredo com a atriz Mildred Harris, 16 anos, da qual se separa no ano seguinte, após a morte do filho do casal aos três dias de vida. Em 1924, com Lita Grey que três anos depois inicia ação de divórcio reclamando 2 milhões por perdas e danos e 5 milhões pela parte dos bens do casal que tem dois filhos. Em 1933, outro casamento em segredo, com Paulette Levy, ficam juntos até 1942. Em 1943, com 54 anos, Chaplin encontra Oona O'Neill, 18 anos, que quer fazer teatro e pede-lhe conselhos, casam-se em junho. Oona e Chaplin tiveram 8 filhos.
No campo político, Chaplin fez forte ataque à passividade americana ante o ataque de Hitler contra a URSS. Foi perseguido como vermelho de Hollywood, tendo sido pedida pela Câmara dos Representantes e pelo Senado em Washington, sua explusão dos Estados Unidos e a proibição de seus filmes. Ao ser assaltado por perguntas maldosas, numa conferência com jornalistas, em 1947, Chaplin responde: "Não penso que se deva dividir as pessoas em categorias segundo as suas opiniões. Isto conduz ao fascismo. Por minha parte, não pertenço a nenhum partido político. A vida tornou-se realmente demasiado técnica e cada um de nós deveria andar sempre com um guia das regras de etiqueta no bolso. Porque agora, basta descer um passeio com o pé esquerdo para se ser tido por comunista..." Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, Chaplin é citado plea Comissão de Atividades Anti-americanas, e a exibição do filme The Great Dictator é proibida na Argentina e em vários países da América Latina.
Charles morre em 1977, com 88 anos, na mansão Manoir de Ban, rodeado por Oona, 8 dos 10 filhos e 7 netos.
Os dois filhos mais velhos, Charles e Sidney, estiveram sempre por perto, trabalhando com o pai e em convívio com Oona e os irmãos.
Falando de sua mãe: "Foi olhando-a e observando-a que não só aprendi a traduzir as emoções com minhas mãos e meu rosto, mas também a estudar o homem."
Em outro trecho do mesmo artigo - Carlitos - Uma antologia - ele diz: "Todo o meu segredo foi o de ter mantido os olhos abertos e o espírito vigilante em relação a todos os incidentes capazes de serem utilizados em meus filmes: Estudei o homem porque, sem o conhecer, nada poderia ter feito na minha profissão."
"Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror."
Fonte:Chaplin por ele mesmo - Martin Claret
Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, filho de um cantor e uma bailarina. Órfão de pai aos 5 anos, aos 7 vai para um asilo-orfanato com o meio-irmão Sidney, onde ficam por dois anos, até reencontrarem sua mãe agora "curada" de mal psiquiátrico. Aos 11 anos, sua mãe tem novas crises e é internada. Sozinho, sem casa e sem trabalho, dorme nas ruas e procura cachês nos music-halls.
Desde muito cedo, com apenas 9 anos, já se apresenta pelos music-halls londrinos. O irmão Sidney, aos 21 anos, torna-se empresário de Charles (17 anos) e orienta-o para o cômico. Aos 24 anos deixa a Inglaterra e em Los Angeles inicia a carreira cinematográfica. Entre 16 e 19 de janeiro de 1914 faz seu primeiro filme, Making a Living. Em 1917, já com 62 filmes feitos, inicia a construção do Estúdio Chaplin no Sunset Boulevard em Hollywood. As cifras aumentam. O método de filmar uma cena inúmeras vezes chega ao extremo em The Kid no qual algumas cenas são filmadas mais de 100 vezes. Em 1928, toma partido contra o cinema falado, para em seguida reiniciar as filmangens de City Lights como fita sonora. Em 1932, embarca para a Europa para apresentar City Lights e encontra-se com personalidades literárias, políticas e teatrais - Bernard Shaw, Lady Astor, Winston Churchill, príncipe de Gales, Gandhi). Às portas da Segunda Guerra Mundial prepara e inicia as filmagens do The Great Dictator.
Casa-se várias vezes. Em 1918, em segredo com a atriz Mildred Harris, 16 anos, da qual se separa no ano seguinte, após a morte do filho do casal aos três dias de vida. Em 1924, com Lita Grey que três anos depois inicia ação de divórcio reclamando 2 milhões por perdas e danos e 5 milhões pela parte dos bens do casal que tem dois filhos. Em 1933, outro casamento em segredo, com Paulette Levy, ficam juntos até 1942. Em 1943, com 54 anos, Chaplin encontra Oona O'Neill, 18 anos, que quer fazer teatro e pede-lhe conselhos, casam-se em junho. Oona e Chaplin tiveram 8 filhos.
No campo político, Chaplin fez forte ataque à passividade americana ante o ataque de Hitler contra a URSS. Foi perseguido como vermelho de Hollywood, tendo sido pedida pela Câmara dos Representantes e pelo Senado em Washington, sua explusão dos Estados Unidos e a proibição de seus filmes. Ao ser assaltado por perguntas maldosas, numa conferência com jornalistas, em 1947, Chaplin responde: "Não penso que se deva dividir as pessoas em categorias segundo as suas opiniões. Isto conduz ao fascismo. Por minha parte, não pertenço a nenhum partido político. A vida tornou-se realmente demasiado técnica e cada um de nós deveria andar sempre com um guia das regras de etiqueta no bolso. Porque agora, basta descer um passeio com o pé esquerdo para se ser tido por comunista..." Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, Chaplin é citado plea Comissão de Atividades Anti-americanas, e a exibição do filme The Great Dictator é proibida na Argentina e em vários países da América Latina.
Charles morre em 1977, com 88 anos, na mansão Manoir de Ban, rodeado por Oona, 8 dos 10 filhos e 7 netos.
Os dois filhos mais velhos, Charles e Sidney, estiveram sempre por perto, trabalhando com o pai e em convívio com Oona e os irmãos.
Falando de sua mãe: "Foi olhando-a e observando-a que não só aprendi a traduzir as emoções com minhas mãos e meu rosto, mas também a estudar o homem."
Em outro trecho do mesmo artigo - Carlitos - Uma antologia - ele diz: "Todo o meu segredo foi o de ter mantido os olhos abertos e o espírito vigilante em relação a todos os incidentes capazes de serem utilizados em meus filmes: Estudei o homem porque, sem o conhecer, nada poderia ter feito na minha profissão."
"Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror."
Fonte:Chaplin por ele mesmo - Martin Claret
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Jorges e Georgias
Luka, e seu Azarado, fez lembrar dessas pessoas que cruzam a rua gesticulando e falando, não se sabe com quem, ou o que dizem, ou porquê, e que deixamos sumir pelo retrovisor.
Pele curtida do sol, cabelo duro de sujeira, rouspas rasgadas, tão magros que não se consegue saber se homem ou mulher.
O que teria acontecido, como vive, onde dorme, o que come, quando come, seu passado qual foi, e a família?
Tudo isso me pergunto, sabedora de que a fronteira entre sanidade e loucura é pequena, basta um passo.
É preciso ter experimentado ou presenciado um pouco disso para questionar?
Não precisam se preocupar com muito, é verdade.
E não há quem se preocupe com eles.
Pele curtida do sol, cabelo duro de sujeira, rouspas rasgadas, tão magros que não se consegue saber se homem ou mulher.
O que teria acontecido, como vive, onde dorme, o que come, quando come, seu passado qual foi, e a família?
Tudo isso me pergunto, sabedora de que a fronteira entre sanidade e loucura é pequena, basta um passo.
É preciso ter experimentado ou presenciado um pouco disso para questionar?
Não precisam se preocupar com muito, é verdade.
E não há quem se preocupe com eles.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Sinônimos
Engraçado. Engraçado, no que denota a palavra, não era, mas foi a que escolhi.
Na verdade era interessante, mas achei o termo pouco interessante para aquela situação.
O intento era dizer que achei bacana, legal, maneiro, sem usar gírias, achei ...
Bom, bem colocado, cativante, curioso, aprazível, notável, sensacional, tudo isso, mas em outra palavra, mais comum, mais próxima.
Isso para comentar Vocações de Miguel Sanches, que achei curioso por ele descrever o que acontece em minha casa mas com papéis invertidos, porque o chef é Eduardo e eu, a ajudante.
E é também curioso, engraçado, como nos faltam as palavras, as que temos não nos agradam, não atendem.
Ler, ler mais, muito mais.
Por fim, acabei usando "engraçado" em seu sentido conotativo.
Na verdade era interessante, mas achei o termo pouco interessante para aquela situação.
O intento era dizer que achei bacana, legal, maneiro, sem usar gírias, achei ...
Bom, bem colocado, cativante, curioso, aprazível, notável, sensacional, tudo isso, mas em outra palavra, mais comum, mais próxima.
Isso para comentar Vocações de Miguel Sanches, que achei curioso por ele descrever o que acontece em minha casa mas com papéis invertidos, porque o chef é Eduardo e eu, a ajudante.
E é também curioso, engraçado, como nos faltam as palavras, as que temos não nos agradam, não atendem.
Ler, ler mais, muito mais.
Por fim, acabei usando "engraçado" em seu sentido conotativo.
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