sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Pelos céus da cidade

- Viu aquela kombi branca?
- Saiu do ferro velho para respirar ar fresco, só pode.
Kombi branca, umas janelas sem vidros, outras com o fumê dissolvido, transparente ao cinza escuro.
- Vamos seguir?
- Bora.
Porta-malas preso por cadeado aberto. Nenhuma lâmpada funcionando, nem do freio, nem do pisca.
- A lataria está só os cacos, mas o motor ainda faz bonito.
- Desbanca qualquer desses mil novos.
- Conseguiu ver a cara do motorista?
- De relance, bigode, óculos quadrados. Queria mesmo era ter visto melhor por dentro.
- Mas agora vamos sair daqui. Está esquentando.
- Bora. Tem uma sombrinha no telhado daquela casa acolá.
- Pru, pru.
- Pru, pru.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Tapinha educativo?

Está sendo chamada de lei da palmada. O Estatuto da Criança e do Adolescente já proibia maus-tratos, a nova lei prevê penalidades para os castigos corporais e tratamento cruel e degradante contra crianças e adolescentes.
Palmadas educativas, questão cultural, alguns são contra por achar uma intromissão indevida do Estado num assunto familiar e particular, outros apoiam a ideia mas admitem não cumpri-la.
Nenhuma pessoa de bem pode concordar com agressão, física ou verbal, contra uma criança.
Trago para mim e lembro das vezes em que recorri a esse expediente. Com certeza, nas cinco vezes em que aconteceu, foi por eu ter perdido a calma, quis impor meu ponto de vista e não ser mais contrariada.
Como, num momento de descontrole, causado pela raiva ou pelo susto, medir a força da palmadinha?
E qual foi o resultado? Meu filho, depois do susto e do choro, me abraçava e seu olhar me dizia que ele queria ter certeza de que eu ainda gostava dele.
O que a palmadinha ensinou? Que aquela era uma situação de risco ou que ele deve ter medo da mãe, medo da mãe ficar com raiva?
Poderia dizer que o fiz para evitar que ele sofra depois, evitar uma ameaça a sua saúde física. Mas as custas de que? De sua auto-estima, de sua saúde psicológica?
Uma vozinha diz: não seja tão dura consigo mesma, as crianças sobrevivem a tudo isso, e crescem, aprendem e serão adultos felizes. Mas quantas vezes eu ouvi meu marido contar de uma palmada que nunca esqueceu, e as imprecações e os insultos que minha mãe usava para nos convencer a obedecê-la, ainda vivas em minha memória.
Usar de atos e palavras para subjugar, ofender e oprimir ou dialogar com uma criança pequena como se faz com um adulto e esperar que ela entenda todos os porquês?
Tem que existir um meio termo entre o militar e o hippie.
Precisamos encontrar uma forma de mostrar que é sempre bom respeitar e algumas vezes é preciso obedecer, sem destruir a auto-estima, a confiança e a cumplicidade.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Trânsito

Cada barra de cereal, cada guloseima, uma embalagem jogada pela janela, um porco.
Dirigindo como um bêbado, com movimentos bruscos da direção.
Freando sem motivo, sem carros a sua frente.
Não posso ultrapassar, um caminhão ao lado.
Minha raiva vai aumentando, aumentado, até que dobro à direita e me livro dele.
Por ele a mesma raiva que destino aos motoristas que avançam o pare, sem parar, me obrigando a reduzir a velocidade.
E quase a mesma revolta contra aqueles que não usam a sinaleira.
Caminhões e ônibus na pista da esquerda são um tipo à parte, destes eu desisti de ter raiva.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Paquera

À entrada do consultório notei o rapaz, alto, cabelos calculadamente desarrumados, apertando freneticamente seu mp3 player, impaciente com a espera.
Entrei e falei com a atendente.
Procurei um lugar protegido do ar-condicionado, sentei, peguei uma revista e começei a folheá-la.
O rapaz entra em seguida, para uns instantes na recepção, e na sala de espera escolhe uma cadeira próxima a minha.
Senta, pigarreia, tosse e olha para mim.
Finjo não perceber, achando graça. Nessa idade o que querem é chamar atenção, treinar o jogo da sedução.
Na falta de uma garota da sua idade, ele escolhe a mim.
Olhando ao redor eu vejo que não há concorrência alguma.
Senhores e senhoras uns 20 anos acima e crianças uns 30 anos abaixo.
Finalmente deixa o aparelhinho cair no chão, perto dos meus pés.
Quando olho, ele desvia o olhar.
Continuo folheando a revista.
A atendente me chama:
- Neusa. Pode entrar.
- Obrigada.
Saio pensando no cômico da situação.
Ainda que não houvesse opção melhor, senti-me lisonjeada com a escolha.
Esses garotos!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fração

Numa fração de segundos
num cruzamento
área nobre da cidade
fim de tarde de domingo
mãe no volante
menino distraído
avó atenta
parados no sinal

numa fração de segundos
assistimos a tudo
atônitos:
na via contrária             
  em alta velocidade         
    avança o sinal vermelho
   
na perpendicular
  freia
    capota três vezes
      choca-se contra o poste
        ali fica, teto na pista

perdemos o contraventor de vista
ouvimos as buzinas dos carros em volta

uma fração de segundos
o sinal abre
seguimos em frente
assustados
vivos

a sorte quis
que os envolvidos sobrevivessem
que nenhum outro carro fosse atingido
que saíssemos ilesos
fisicamente ilesos

sexta-feira, 23 de julho de 2010

De minha parte

Lembro de ter lido numa entrevista, uma socióloga falando de sua obra, não lembro quem era, nem em qual revista li, mas não vem ao caso agora.

- Como é ser casada durante quarenta anos com a mesma pessoa?
- Quem disse que sou casada com a mesma pessoa? Nesses 40 anos, ele mudou, eu mudei. Nem ele é a mesma pessoa que conheci a 40 anos, nem é a mesma pessoa de ontem, e nem mesmo eu sou a mesma pessoa.

Adorei.

Iluminou.

Eu, de minha parte, sou casada a 15 anos com esse pessoa mutante chamada Eduardo.

E me esqueci de elogiar o macarrão que ele fez ontem no almoço.
Estava mesmo delicioso, como tudo mais.