quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Jorges e Georgias

Luka, e seu Azarado, fez lembrar dessas pessoas que cruzam a rua gesticulando e falando, não se sabe com quem, ou o que dizem, ou porquê, e que deixamos sumir pelo retrovisor.
Pele curtida do sol, cabelo duro de sujeira, rouspas rasgadas, tão magros que não se consegue saber se homem ou mulher.
O que teria acontecido, como vive, onde dorme, o que come, quando come, seu passado qual foi, e a família?
Tudo isso me pergunto, sabedora de que a fronteira entre sanidade e loucura é pequena, basta um passo.
É preciso ter experimentado ou presenciado um pouco disso para questionar?

Não precisam se preocupar com muito, é verdade.
E não há quem se preocupe com eles.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sinônimos

Engraçado. Engraçado, no que denota a palavra, não era, mas foi a que escolhi.
Na verdade era interessante, mas achei o termo pouco interessante para aquela situação.
O intento era dizer que achei bacana, legal, maneiro, sem usar gírias, achei ...
Bom, bem colocado, cativante, curioso, aprazível, notável, sensacional, tudo isso, mas em outra palavra, mais comum, mais próxima.
Isso para comentar Vocações de Miguel Sanches, que achei curioso por ele descrever o que acontece em minha casa mas com papéis invertidos, porque o chef é Eduardo e eu, a ajudante.
E é também curioso, engraçado, como nos faltam as palavras, as que temos não nos agradam, não atendem.
Ler, ler mais, muito mais.
Por fim, acabei usando "engraçado" em seu sentido conotativo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Onde a cólera?

Interessante como Raduan Nassar escreve em Um copo de cólera, seus parágrafos longos, os diálogos entre aspas no meio dos períodos repletos de pensamentos do protagonista, com seus c'oas, c'um, incomuns.
Não terminei a leitura, mas até aqui, parece-me inverosímel que numa discussão se usem os termos do livro.
Trata-se de uma jornalista e de um canalha letrado, sei, mas tais personalidades não brigariam em bom e baixo nível e alto e bom som como os demais mortais?
Ando me perdendo no raciocínio e linguagem intrincados desse homem que tenta controlar, sem muito sucesso, o fio da sua cólera.
Resta pedir ajuda a literata da família: Lucinha, socorro!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sem pressa

O sol de meio dia a pino, a cabeça latejando. Não devia estar com uma cara muito boa.
Ainda assim a senhora me parou quando eu andava em direção ao carro estacionado na rua próxima à empresa.
- Minha filha, porque quando a gente fica velha anda tão devagar?  Se eu estiver segurando o braço de alguém, como dessa menina que anda comigo, consigo acompanhar, mas sozinha...
- É mesmo? - ela está bem, porque minha mãe, muito mais nova, nem arrastada anda mais rápido.
- É, porque será?
E para que falar em velhice, doença?
- Mas também, pra que essa pressa toda não é mesmo? Vamos devagar, apreciando o dia. Gente nova é que só anda correndo, aperreada.
- É mesmo, e eu moro aqui pertinho. Bom dia, minha filha, Deus te acompanhe. Até mais.
- Amém. Até logo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Férias da meninice

Coisa mais divertida era tirar todos os calçados da antiga sapateira da vovó.
Calça-los, desfilar pela casa.
Nessas horas vovó contava os dias para o fim das férias e o retorno da sua paz, rotineira, inflexível.
Inez já mostrava seu interesse pelos bichos e espalhava açúcar pelo chão, num caminho até a porta, para assim poder observar as formigas com calma e conduzí-las à liberdade.
Vovó chamando tudo aquilo de arrumação.
- Que é mais que essas meninas vão inventar Maninha?
Subir no sapotizeiro e comer muitos frutos maduros e quentes.
Fazer a barba do vôvo com talco, cuspe e pente.
Passar o dia no sítio de Cascavel, assando castanha de caju, descascando e comendo mal esfriavam.
Tomando banho de poço, aos baldes.
Dias de praia, banhos de mar até não mais poder, com os primos que víamos uma vez por ano.
Aprendendo brincadeiras e toda sorte de danações.
Assim era, na meninice.

Férias em Fortaleza, 1977-1979